quarta-feira, 20 de junho de 2012

O sempre desconcertante Jesus !!!



Pr Isaltino Gomes Coelho Filho
Publicado originalmente na revista “Você”
“Pois eu também não condeno você. Vá e não peque mais!” (João 8.11) Todos nós conhecemos bem esta história. Já a lemos e a ouvimos muitas vezes. Ela começa com uma pegadinha dos líderes judeus, para derrubarem Jesus. Trouxeram-lhe uma mulher, “apanhada em adultério”. A Lei mosaica mandava apedrejá-la, dizem eles. Qual seria a posição de Jesus? Esta é a pegadinha. Quando a pegadinha é uma brincadeira, é suportável. Quando é maldosa é muito desagradável. Se Jesus dissesse que a mulher não deveria ser apedrejada (eles deviam esperar esta atitude de Jesus, pela sua pregação sobre o amor de Deus), eles o acusariam de ser contra a Lei. Se dissesse que deveria ser apedrejada, perguntariam: “E o seu ensino sobre o amor de Deus?”. Qualquer que fosse a resposta, eles o acusariam. Ficaria na situação do personagem de “O alienista”, de Machado de Assis: “Preso por ter cão, preso por não ter cão”. Fazedores de pegadinha nem sempre são pessoas honestas em sua argumentação. A Lei não dizia para apedrejar a mulher, e sim os dois (Lv 20.10). Onde estava o homem, se fora um flagrante de adultério? Porque ninguém adultera sozinho. Ao invés de questionar a atitude deles, Jesus passa a escrever no chão. Como esse ato tem recebido especulações! O que Jesus teria escrito? Não creio que este seu ato tivesse qualquer finalidade de nos levar a perguntar o que ele traçara. Parece tão clara a sua atitude: aquela situação era absolutamente irrelevante para ele. É como quando alguém nos diz alguma coisa a qual não damos valor e vamos fazer outra coisa. Foi isso que ele fez. Como se dissesse: “Ah, será que vocês não têm coisa mais importante para fazer?”. Mas o pessoal não havia tomado jeito. Já levara alguns “foras” de Jesus, e insiste na pegadinha. Bem, já que querem, vão passar vergonha. “Está certo, já que vocês querem apedrejar, que apedrejem. Quem estiver sem pecado que comece!”, é mais ou menos a resposta dele. Agora, a pegadinha foi feita por ele! Jesus é mesmo desconcertante e sempre inverte os papéis, quando alguém quer deixá-lo em situação incômoda. Quem está sem pecado é um santo completo! Que apedreje! Mas santos completos não apedrejam, porque são pessoas bondosas, cheias de misericórdia. Pronto! Todos se calam e vão saindo de fininho. Vieram para envergonhá-lo e passaram vergonha. A seguir, ele pergunta à mulher pelos seus acusadores e a manda embora, dizendo que ele também não a condenava. Contudo, não se pense que Jesus fez vistas grossas ao pecado da mulher, tipo “Deixa pra lá!”. Ele afirmou que ela errou: “Vá e não peque mais!”. Ele a perdoou, mas disse que ela pecara. Dessa atitude dele podemos tirar quatro ensinos muito bons para nossa vida. O primeiro ensino é que ele não é um Salvador tipo “paizão” que fecha os olhos a todos os erros e nunca os repreende. Hoje se vê muito desse tipo de pai que ao invés de ensinar e corrigir os filhos fecha os olhos para seus erros e os apoia em tudo. Isso pode agradar a filhos que gostam de andar errados, mas não os prepara para a vida. Ele não apoiou a mulher, e sim lhe deu uma nova oportunidade. Fez isso porque é misericordioso. Ele sempre nos dá uma oportunidade de consertarmos a nossa vida, com seu perdão. Jesus perdoa, embora mostre o erro. Ele é nosso advogado (1Jo 2.1), e não nosso acusador. Aliás, o acusador é o Maligno (Ap 12.10. O segundo ensino é que sua misericórdia é maior que nosso pecado. Ele não disse que Moisés estava errado, mas usou de misericórdia. “Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17). Ele não veio nos trazer condenação porque já estamos condenados. Veio trazer sua graça. Nenhum de nós, quando erramos e temos consciência disso (a mulher nem protestou porque sabia que era culpada), não precisamos de gente esfregando sal grosso e pimenta em nossas feridas. Precisamos de graça. Jesus usa de graça para conosco! Sua graça cobre nossos pecados. O terceiro ensino é que sempre pensamos em pecados que não cometemos, quando nos comparamos com os outros. Ficamos indignados quando vemos na vida dos outros algumas coisas que achamos erradas. Usar drogas? Deus me livre, eu não faço isso! Agredir os pais? Que horror, eu nunca faria uma coisa dessas! Sempre nos comparamos aos piores. Mas e a língua grande que responde mal aos pais? Estamos limpos de drogas. Graças a Deus! Mas estamos com o coração limpo? Com a mente limpa? Com a língua limpa? Alguém já disse que quando estendemos nosso dedo indicador para alguém, acusando-o, três dos nossos dedos que ficaram dobrados apontam em nossa direção. Seria bom verificarmos nossos erros e consertarmos a nossa vida, logo, impedindo que ela se estrague. O quarto e último ensino é muito confortador: inevitavelmente, alguns de nós erraremos bem feio em nossa vida. Muitas pessoas poderão ficar indignadas conosco. E até nos acusarão com muita veemência. Se um dia acontecer isso com você, e você se sentir pra baixo, arrasado, lembre-se: vá até Jesus, confesse, peça perdão e peça forças para continuar sua vida. Ele sempre perdoa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.8). Nunca se distancie de Jesus! Mesmo quando estiver errado, procure-o. Ele sempre compreenderá e se vir arrependimento em sua vida, lhe perdoará. Ele é mesmo desconcertante para nossos padrões!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Por uma Igreja Velha

Estimativas da SEPAL (Serviço de Evangelização para a América Latina) preveem que 50% da população brasileira será evangélica em 2020. Esta estimativa seria motivo de grande alegria se este crescimento fosse alicerçado no verdadeiro evangelho de Cristo. Temos visto nas últimas décadas um crescimento acelerado de igrejas intituladas evangélicas, mas o que ensinam está em desacordo com os ensinamentos de Jesus. Mais entristecedor que isto é que denominações tradicionalmente reconhecidas por serem fiéis à Palavra de Deus como os Batistas, Metodistas e Presbiterianos também tem formado líderes adeptos a teologias neopentecostais cujo objetivo é atrair “clientela” com falsos ensinamentos. Entristeço-me ao ler e presenciar em certas ocasiões líderes e membros destas igrejas históricas pronunciarem jargões comuns nas denominações pentecostais e nas seitas neopentecostais como: “eu tomo posse”, “eu determino”, “eu profetizo”. Não bastando estes absurdos que não têm embasamento bíblico, ainda acrescentam a expressão “em nome de Jesus”. Pensam, com isto, que Jesus está de acordo com as barbaridades que dizem. Se são estes os evangélicos que representarão 50% da população brasileira em 2020, não há motivos para comemorar. Muitos pastores (talvez a maioria) das igrejas evangélicas da atualidade temem perder a popularidade, temem perder “fiéis” para a concorrência e, para se manterem na crista da onda, apelam para um evangelho distorcido, um evangelho que não incomoda o pecador, um evangelho apenas de bênçãos e prosperidade. Pouco ou nada se fala sobre arrependimento, sobre uma vida que prima pelo caráter. Em um excelente artigo escrito pelo Pr Isaltino Gomes Coelho Filho lemos: No passado, éramos chamados de “crentes” e éramos respeitados. Eu tinha 16 anos, trabalhava num escritório, na 7 de Setembro, no Rio. Numa noite, roubaram o cofre da empresa. A polícia veio investigar. Fim do expediente, eu precisava sair porque estudava. Um policial disse: “Deixa o menino ir. Ele é crente e crente não faz isso”. Não era eu, como pessoa. Eram os crentes. Acima de suspeita. Depois viramos “evangélicos”. Alguns são “gospel”. Ora, vão para os Estados Unidos! Mas quando éramos respeitados, o caráter era trabalhado em nossas igrejas.” Estava eu pensando nos rumos que o evangelho está tomando. Se na maioria das igrejas evangélicas se prega mensagens para apalpar o pecador, para atrair clientela, um evangelho em que não se enfatiza o caráter cristão, um evangelho em que posso determinar, exigir meus direitos, tomar posse de bênçãos, o que os novos “convertidos” ou novos evangélicos entenderão de igreja? Para estes, que só conheceram este evangelho de barganha, onde a igreja é um mercado em que vou buscar minhas bênçãos, o verdadeiro evangelho é isto. Um emaranhado de doutrinas falsas tidas como verdadeiras. No mesmo artigo do Pr Isaltino citado acima lemos: “... precisamos clamar por “uma igreja velha”. Uma igreja velha, sim. Uma igreja antiga. Uma igreja em que a Bíblia seja pregada, em que a crença no poder do Espírito para fazer a obra crescer nos leve a prescindir de atos desonestos, de manipulações e de extorsão na contribuição. Uma igreja velha em que evangelizemos, e não agridamos. Em que aceitemos o crescimento dado pelo Espírito, e não o de “marketing”. Uma igreja velha, onde caráter seja mais importante que os nomes de figurões usados para adornar a igreja. Uma igreja velha em que o evangelho não ceda lugar à convivência amiga, sem contestações e sem exigências, “porque precisamos atrair as pessoas”. Uma igreja velha que pregue Jesus e não política. E que não chame de “alienados” os que pregam que “Jesus salva” e que só Jesus pode mudar o mundo.” Sim, creio que os evangélicos comporão 50% da população em 2020. Mas e quanto aos servos de Jesus, salvos e dispostos a carregar a sua cruz diariamente, negando-se a si mesmos, dispostos a propagar o verdadeiro evangelho sem medo de perder popularidade, haverá algum?

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Destruidor do Povo de Deus

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Oséias 4.6) Oséias é o maior poeta do amor de Deus. Foi o único profeta escritor de Israel, o Norte. Por vinte anos (aproximadamente 750 a 730 a.C.), ele advertiu o povo de Deus do risco da destruição. Oito anos após sua morte, o Norte foi levado cativo e desapareceu. Ficou apenas Judá, o Sul. O Israel de Esdras, Neemias, Ageu, Zacarias, Malaquias e do Novo Testamento é o Judá retornado. O Israel de Oséias acabou. Foi destruído por falta de conhecimento. “Porque lhe falta o conhecimento”, disse Deus. “Conhecimento”, aqui, não é erudição ou informação. Também não tem a ver com analfabetismo. O termo hebraico é daat, que significa “conhecimento íntimo, pessoal, profundo”, conhecimento relacional. Oséias viveu esta experiência em casa. Sua esposa, Gômer, o deixou. Tornou-se meretriz num culto pagão, que divinizava a natureza e tinha sacerdotisas prostitutas que se entregavam, no templo da Deusa, para trazer fertilidade à terra. Gômer não entendia o amor do marido. Ele a resgatou no templo pagão e a trouxe para casa. Ela não tinha daat e por isso destruía sua vida. Ela não o amava. Muitos cristãos não têm daat. Amam seus gostos, não Deus. Gostam de festa, de culto com “fogo puro”, como dizia uma placa na porta de uma igreja (que tolice!) e de alarido. Mas a vida não mostra daat de Deus. Não exibe frutos de quem se relaciona com ele. Passando por Brasília, adquiri o “Jornal de Brasília” (28.5.12). A manchete era “Pregando na cadeia”, mas não alude a evangelismo na prisão. Alude à prisão do ex-deputado distrital Junior Brunelli, da famosa “oração da propina”, que correu pelo Youtube. Nela, o deputado agradecia o dinheiro vindo da corrupção, como sendo uma “bênção de Deus”. O ex-deputado e agora presidiário é pastor. Não me anima falar contra a igreja dos outros. Mas não me calo quando jogam o nome de Jesus na lama. Brunelli foi preso na “Operação Hofini”, nome do filho corrupto do sacerdote Eli. Ele também enlameou o nome de sua igreja. Com ironia, o jornal fala da igreja como sendo “propriedade da família de Brunelli”. Ela prega bênção e cura. Inclusive chama-se “Casa da Bênção”. Mas seu pastor não pregou caráter. Um crente em Jesus tem caráter. O evangelho prega a transformação da pessoa. De alguém perdido a alguém salvo por Jesus, que mostra isso na vida. O evangelho não chama o convertido à riqueza, mas à santidade: “A vontade de Deus para vós é esta: a vossa santificação…” (1Ts 4.3). Os cristãos estão ouvindo mensagens mais para Lair Ribeiro que para Jesus Cristo. Assim, sobram-lhes palavras de ordem e lemas triunfais. E falta-lhes daat. Sem relacionamento pessoal e profundo com Deus, eles se destroem. E desonram a Jesus. Isto é o mais trágico. “Pois, como está escrito, por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre as nações” (Rm 2.24). Busquemos daat, e não bênçãos. Bênçãos ele dá porque ele é bom. Caráter nós cultivamos. E devemos fazê-lo para honrá-lo com nossa vida. Pr Isaltino Gomes Coelho Filho